O primeiro relógio cronógrafo automático do mundo, um Seiko?

No artigo de hoje elucidaremos de vez um polêmico assunto que constantemente é abordado nas conversas entre amigos apaixonados por relógios, seja presencialmente ou de forma virtual nos fóruns e grupos espalhados pelo mundo. Afinal de contas, quem lançou o primeiro relógio cronógrafo automático do mundo?

Antes de entrarmos na matéria propriamente dita é necessário compreendermos que um cronógrafo é um instrumento capaz de medir o transcurso do tempo dentro de uma certa fração de tempo, ou seja, é aquela função que vulgarmente conhecemos como cronômetro. Na verdade um cronômetro é um certificado que atestará a alta precisão desse relógio e do cronógrafo, portanto, nem todo cronógrafo é um cronômetro.

Seiko 6139-6012 e 6139-6015. Foto: adventuresinamateurwatchfettling.com

Até o final dos anos 60 todos os relógios cronógrafos eram mecânicos manuais e muitas empresas tentavam desenvolver o primeiro movimento automático com essa complicação. A resposta da Seiko veio com o calibre 6139 cronógrafo automático, um dos mais importantes movimentos de sua história. Para se ter uma ideia o cal. 6139 carrega ao menos duas grandes reivindicações em seu nome, ele equiparia o primeiro cronógrafo automático lançado no mundo e o primeiro cronógrafo automático utilizado no espaço, realmente não é para qualquer um.

Como comentei em outros artigos do Seiko PhD, especialmente no que narra o pioneirismo da Seiko na história dos relógios a quartzo, o final dos anos 60 foi fervilhante no que tange a grandes lançamentos e ao desenvolvimento de novas tecnologias no mercado relojoeiro. A Seiko buscava ser a primeira indústria do mundo a lançar um relógio de pulso a quartzo, fato este conquistado em 1969 e que desencadearia a chamada revolução ou crise do quartzo, assim como tentava lançar o primeiro relógio cronógrafo automático do mundo, apresentando também em 1969 o Seiko Speed-Timer de calibre 6139. Mas ele foi o primeiro?

Seiko Automatic Chronograph 6139-7100 Helmet. Foto: pinterest.com/photobucket

O foco maior da Seiko estava no pioneirismo do quartzo, especialmente pela inovação tecnológica e pela maior precisão desse tipo de maquinário. A guerra pelo primeiro cronógrafo automático foi deixada um pouco de lado e por isso mesmo até os dias atuais não é um assunto pacificado, uma vez que outras empresas também reivindicam o título de lançamento do primeiro cronógrafo automático do mundo. Então, quem lançou o primeiro relógio cronógrafo automático do mundo?

Essa resposta vai depender, na verdade, de “a qual primeiro” você está se referindo. Digo isso, pois a Zenith foi a primeira indústria do ramo relojoeiro a reivindicar a fabricação do primeiro cronógrafo automático quando apresentou alguns protótipos em 10 de janeiro de 1969 e os nomeou – sabiamente – de “El Primero”, nome utilizado até os dias de hoje em alguns de seus relógios.

Seiko Automatic Chronograph 6139-6002 Pogue. Foto: ebay.co.uk

O segundo concorrente recebeu o nome de Chronomatic Group (CG) e era formado pela Tag Heuer, Breitling e Hamilton. As três empresas se uniram na luta pelo cobiçado título e em 03 de março de 1969, em um grande evento com presença em massa da imprensa internacional, divulgou alguns protótipos de relógios cronógrafos automáticos. Em abril do mesmo ano, em um dos eventos mais importantes do mundo relojoeiro, a Baselworld, o CG trouxe várias amostras e protótipos, encantando os presentes com alguns de seus belíssimos relógios. A Zenith também estava presente, porém com poucas amostras e há relatos de que muitas das amostras de ambas as empresas simplesmente não funcionaram ou funcionaram incorretamente.

Por fim temos a situação da Seiko onde, em maio de 1969, a empresa simplesmente começou a comercializar os relógios Seiko 6139-600X no mercado japonês e reivindicou ser verdadeiramente a primeira a lançar um cronógrafo automático, pois as demais só dispunham de amostras e protótipos, enquanto a Seiko já os fabricava massivamente e os vendia ao consumidor final em pleno funcionamento.

Seiko Automatic Chronograph 6139-7060 Blue Eye. Foto: @seikophd.

Neste ponto precisamos compreender dois fatores. Um: se a Seiko já entregava ao consumidor final seus relógios em maio de 1969, obviamente a empresa já os desenvolvia há algum tempo e certamente possuía muitos protótipos, entretanto simplesmente não os divulgava, o que nos leva ao próximo ponto. Dois: o trabalho de marketing da Seiko sempre foi péssimo, especialmente no ocidente, e a empresa só começou a verdadeiramente divulgar seus lançamentos no decorrer dos últimos cinco anos, mesmo assim com bastante ressalvas. A Seiko continua deixando de lado o valor da publicidade e certamente perde muito com isso.

Penso que esse foi um dos principais motivos da emancipação da marca Grand Seiko em 2017 quando renasceu mais influenciada por conceitos mistos entre ocidente e oriente. Essa característica internalista e bastante japonesa sempre foi muito criticada pelo polo ocidental do globo e, aparentemente, a Seiko tem escutado e começa a apresentar evoluções – lentas – nesse sentido, ao contrário dos europeus que sabem muito bem utilizar o poder da propaganda a seu favor e vêm construindo uma consolidada história de agregação de valores a seus produtos.

Seiko Automatic Chronograph 6139-6020 Pulsations. Foto: reddit.com/r/Watchexchange

Esses fatores explicam o fato da Seiko aparentemente começar a vender seus cronógrafos “do nada” em 1969 enquanto os suíços celebravam, soltavam fogos e gastavam alguns milhares de francos suíços na publicidade de seus protótipos. A discussão do pioneirismo é ainda mais estimulada pelo fato de existirem modelos do cal. 6139 datando de, pelo menos, março de 1969 em uma aparente controvérsia, já que foram lançados em maio do referido ano, entretanto não há como assegurar se os modelos de março eram protótipos, se esses relógios já eram comercializados nesse período ou se foram fabricados em março para alcançarem a comercialização em maio. Considero esta terceira opção a mais sensata.

Em suma, a Zenith foi a primeira a anunciar a fabricação e expor protótipos do crono automático em janeiro de 69, a CG foi a primeira a trazer uma variação de amostras e protótipos em março e abril de 69, já a Seiko foi a primeira a colocar os cronógrafos automáticos à venda, todavia, como é comum dos japoneses e seus JDM, os relógios eram exclusividade do mercado japonês e pouco – ou nada – foram divulgados na parcela ocidental do globo.

Seiko Automatic Chronograph 6139-7070 Baby Jumbo. Foto: sg.carousell.com

Portanto, depende de “a qual primeiro” você está se referindo. Esse é um daqueles temas que os “fanboys” quase se matam por aí defendendo veementemente seu ponto de vista quando, na realidade, todos têm alguma parcela de razão nessa história. Moderação é sempre uma escolha sensata diante de uma discussão, como diria minha saudosa avó: – Educação, bom senso e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

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16 comentários em “O primeiro relógio cronógrafo automático do mundo, um Seiko?

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  1. Bom dia, Ramon. Coincidentemente, ouvi essa história nesta semana conversando com o amigo Wilton (que está no grupo do FB). Acredito que a Seiko tenha lançado a comercialização primeiro, mas… É a mesma história de quem inventou o avião: Santos Dumont ou os Irmaos Wright? Grande matéria! Forte abraço!

    1. Pois é Carlos, quanto a colocar os relógios à venda não há dúvidas, foi a Seiko, a questão é o cobiçado título de ser o primeiro a lançar um relógio cronógrafo automático.

      Se entendermos que exibir protótipos é lançar um relógio, foi a Zenith, se entendermos quer exibir amostras funcionais é lançar foi o CG, se entendermos que lançar é realmente disponibilizar para venda relógios funcionando de verdade, então foi a Seiko. 👍

    1. Obrigado Lucas! Fico feliz que tenha gostado meu amigo.
      Hahahah temos uma certa suspeição no caso, mas penso quase isso também: a Zenith foi a primeira a trazer um protótipo e a Seiko a primeira a lançar o crono automático. O CG ficou pelo caminho nesse caso rsss

  2. Ótimo texto!
    Pra mim, o status de primeiro deveria ficar com quem lançou o relógio em plenas condições de produção (ou em produção de fato), pois protótipos, na minha visão, ainda estão no campo das ideias, em nível menor ou maior de aprimoramento.
    Em resumo, pra mim:
    1o a construir o crono automático: Seiko;
    1o a ter a ideia de como efetivamente se construiria um crono automático: não sei.
    Ahh e pra mim ter a ideia é mais relevante que construir.

    Abraço!!

    1. Obrigado João!
      Entendo sua visão e também penso nesse sentido.
      Não há como esconder o erro da Seiko ao não divulgar esse tipo de lançamento, é de uma falta de estratégia terrível, entretanto isso não tira o mérito de ter sido a primeira a comercializar um cronógrafo automático.
      A Seiko teima nesse sentido e até hoje normalmente ficamos sabendo de algum lançamento regular, como um novo Seiko Samurai, apenas quando surge o anúncio de alguma loja asiática. É complicado.
      Abraço meu amigo.

  3. Muito bem abordada essa polêmica Ramon!
    E logo em seguida a Seiko lançou o calibre 6138!
    Quanto ao 6138, há alguma polêmica em relação a quem foi o primeira a produzir um cronoógrafo com dois registros?
    Outra dúvida que tenho é se houve algum uso profissional desses cronógrafos, como em corridas, competições esportivas etc
    Um grande abraço!

    1. Obrigado meu amigo, sempre me esforçando para trazer o conteúdo da melhor forma possível!
      Na questão de mais de um registro a Zenith saiu na frente, pois seu primeiro cronógrafo já veio assim.
      Quanto ao uso profissional, bem, não oficialmente, pois precisariam de uma certificação de cronômetro, o que não dispunham na época.
      Agora, bem antes disso, em 1964, cronômetros mecânicos manuais da Seiko foram utilizados nas Olimpíadas de Tóquio e alcançaram uma precisão absurda, passando a ser utilizados em muitas competições esportivas, o que permanece até hoje.
      Você perguntou por conta de algum caso específico?

      1. Perguntei pq em um dos artigos do Seiko Phd foi mencionado (salvo engano) que o Bull Head foi construído com os botões em cima (os chifres) para facilitar o acionamento do cronógrafo por quem dirigia, até que vc mencionou que seria uma prática perigosa.
        Também lembrei do artigo que tratava do Bull Head azul do Ayrton Senna, o que me suscitou a curiosidade se ele o utilizou na sua época de Kart.
        E outro dia, assistindo o filme Ford vs Ferrari que aborda a corrida de 24h de Le Mans, lembrei do Tag Heuer Monaco usado por Steve McQueen com o macacão de corrida. Aí me perguntei se os pilotos dos anos 70 utilizavam o 6138.
        Quanto ao 6139 tem o caso do próprio Coronel W. Pogue, que usou no espaço né? Acho que para medir o tempo de combustível ou oxigênio em uma operação espacial.

      2. Excelente memória Hector e tem toda razão.
        Esses relógios foram amplamente utilizados pelos pilotos e esportistas da época. O bullhead foi verdadeiramente um fenômeno e muitos pilotos o queriam, como relatamos aqui o caso do Senna.
        Entretanto eram utilizados pelos esportistas e não pelas organizações esportivas. Uma coisa é Senna usar o relógio no pulso para calcular seu tempo em uma volta da F1, outra coisa é a própria organização da F1 utilizar esse relógio como instrumento de marcação de tempo.
        O mesmo ocorreu com o Coronel William Pogue que usou seu cronógrafo 6139 por gostar e confiar nele, mas não era um instrumento oficial.

        Ps: aquela jaqueta Gulf-Heuer do McQueen é espetacular! rsss

  4. Entendi Ramon! Obrigado pelo esclarecimento!
    Realmente é muito estilosa aquela jaqueta do McQueen. A Tag soube aproveitar o automobilismo, especialmente a F1 com o Senna, para se tornar uma marca tão desejada, especialmente pelos brasileiros. Uns dizem que ela não se enquadraria na classe dos demais suíços que se encontram na mesma faixa de preço, sendo alguns modelos considerados até mesmo suíços de entrada pela peça que oferecem.Eu não tenho conhecimento para opinar a respeito, mas de toda forma considero o Tag Monaco muito icônico.
    Uma curiosidade que tenho e sempre pergunto aos mais experientes é com qual relógio suíço a Seiko (de calibres mais “básicos” como 4R35/6, 7S26/36, 7002, 6309 etc) competiria no quesito durabilidade, precisão e relação custo-beneficio.

    1. O Tag Heuer Monaco certamente se tornou um ícone e acaba servindo de referência para relógios quadrados e retangulares de muitas marcas, inclusive os cronógrafos Seiko de calibre 7016.
      Essa questão comparativa é polêmica e muito longa para ser discutida aqui, mas em breve concluirei um artigo onde estou tratando desse assunto de maneira aprofundada, inclusive na questão da falta de essência no mercado de calibres terceirizados. Muita coisa para publicar, pouco tempo para produzir, está complicado rsss… Estou com uns 15 artigos quase prontos, só faltando detalhes para publicar.
      Grande abraço Hector!

  5. Impressionante a qualidade e funcionalidade dos relógios Seiko. Com todo o respeito que as empresas suíças merecem, mas se formos colocar na balança, a Zenith foi precipitada ao vender um relógio com a marca El Primero e a Heuer, que embora seja um relógio bonito, não deixou de ser protótipo. Essa balela de dizer que colocou a coroa do lado esquerdo para “lembrarem” que não necessitava dar corda é uma desculpa esfarrapada, para esconder a falta de capacidade de instalar no lado correto, bem como a falta do seu corpo técnico em produzir uma máquina capaz de caber numa caixa de dimensões normais. Heuer pode rivalizar com os Invicta chinos/americanos na condição de tijolos de pulso. Enquanto os suíços se abraçaram em holdings para lançar seus automáticos, a Seiko desenvolveu sozinha, 3 máquinas distintas de cronógrafos em muito pouco tempo. Essa é a verdade que com tapa de luva, os japoneses desprezaram a possibilidade de produzir um modelo comemorativo ao meio século de produção do seu cronógrafo automático. Se seguirem a tendência, poderão mandar para escanteio a comemoração do El Pogue em 2023.

    1. Muito interessante suas colocações meu amigo, realmente o mundo não esperava essa comercialização do 6139.
      A Seiko chegou a lançar um cronógrafo ano passado em comemoração aos 50 anos de seus cronos de 1969, contudo veio extremamente limitado a 1000 unidades, a divulgação foi apenas mediana e acabou que não cobri aqui no Seiko PhD o lançamento do belo SRQ029 em conjunto com o SRQ031 que comemorou os 55 anos do primeiro cronógrafo de pulso da Seiko (corda manual), fiquei devendo esse artigo que está na minha lista de matérias a serem publicadas assim que o tempo permitir.
      De fato eles não demonstraram tanta importância pela data, comentaram, lançaram um modelo beeem limitado e ficou por isso mesmo.
      Abraço meu amigo e volte mais vezes.

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